Hoje, confesso, o cansaço me rouba a inspiração...
Assim é que, nesta postagem, valho-me das notas de um outro coração, tão amante como o meu, porém mais nobre - é verdade, para novas 'batidas' com você compartilhar...
E fico na torcida para que, mesmo depois de se deleitar com tão sábias palavras, tão incontestável talento e tamanha riqueza de versos, ainda continue a navegar por este cantinho virtual e encontrar prazer na leitura de meus simplórios registros.
AMAR...
De Carlos Drummond de Andrade
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto,
o ser amoroso,sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossaamar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
